Brasil Verde
Opinião

Precisamos falar sobre enchente como escolha política, não como surpresa

Chuva forte não é evento imprevisível. O que falta é obra, manutenção e coragem eleitoral.

Helena Duarte · 10 de junho de 2026 · atualizado 11 de junho

Todo verão assistimos à mesma sequência: alerta meteorológico, bairro alagado, morador no telhado, prefeito de colete em cena para câmera. Depois, promessa de drenagem. Depois, esquecimento até a próxima chuva.

Chamo isso de surpresa performática. Porque, para quem estuda planejamento urbano, não há surpresa nenhuma. Há mapa de risco, há histórico de alagamento, há projeto de drenagem parado por falta de verba ou por troca de gestão.

O que o orçamento diz

Quando uma prefeitura escolhe ampliar avenida para carro em vez de concluir bacias de contenção, está fazendo escolha política. Quando o estado prioriza concessão rodoviária e corta manutenção de córrego aberto, idem.

Não estou dizendo que tudo é culpa do gestor atual. Estou dizendo que tratar enchente como “força da natureza” tira responsabilidade do debate público — e beneficia quem prefere obra visível a obra invisível.

O que muda se mudarmos o discurso

Se a imprensa e os moradores cobrarem cronograma de drenagem com a mesma intensidade que cobram estreia de hospital, o jogo muda. Se candidato for questionado sobre mapa de risco antes de prometer passarela, melhor ainda.

Enchente não é destino. É resultado acumulado. E resultado acumulado pode ser desfeito — devagar, caro, mas possível. Desde que paremos de fingir surpresa.

Leia crônica de Paulo sobre o Capibaribe e texto sobre sustentabilidade e justiça.